Por Marcos Monteiro.A luta pela humanização se faz entre as fronteiras da ética, da moral e da lei. A grosso modo, a ética trata do bem ideal, a moral do bem real e a lei se propõe a regular o trânsito dos cidadãos e cidadãs entre o real e o ideal.
Se as fronteiras entre esses espaços não se encontram bem definidas, há uma ética de fronteira de difícil e problemática regulamentação. Uma delas é o aborto, especialmente quando se configura como dilema ético. O problema ético, a escolha entre bem e mal, tem sempre solução mais fácil. O dilema, a escolha entre bem e bem ou entre mal e mal, nos convida à humildade e à tolerância.
O bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso, não acredita em dilemas nem na elasticidade de fronteiras. Administrando espaços religiosos acima dos espaços humanos e leis acima das leis, enviou para o inferno alguns adultos, pais e médicos que promoveram o aborto de gêmeos de uma criança de nove anos que havia sido estuprada e corria riscos por causa da precoce e agressiva gravidez.
Sem tentar questionar os documentos que autorizam o bispo a administrar as fronteiras entre céu e inferno e sem ter coragem de solicitar firma reconhecida para as leis de Deus, somente me pergunto se alguma vez passou pela cabeça do santo prelado que a sociedade estava decidindo entre dois abortos. Ou o aborto permitido pela Igreja, de uma criança de nove anos, com linguagem, história, sonhos e projetos, ou o aborto zigótico, proibido pelo dogma religioso, e que, nesse caso específico, envolve estupro e por isso conta com o apoio das leis do país.
Se as leis pecam por generalizar, embora tenham a vantagem de serem provisórias e circunstanciais, as leis de Deus absolutizam as generalizações, são permanentes e irrevogáveis. Portanto, o direito de legislar em nome de Deus é de indestrutível tirania.
Diante disso, se em tese devemos ser todos favoráveis à vida e contra o aborto, em casos particulares devemos defender o aborto como única possibilidade de sermos fiéis à vida.
No campo do simbólico, devemos continuar nossa luta contra o aborto de sonhos, o aborto da justiça e o aborto da igualdade. Porém, algumas leis favoráveis ao aborto devem ser promulgadas imediatamente. Abortar a corrupção no momento da concepção do projeto, abortar a violência no útero das relações assimétricas, abortar a intolerância no parto do dogmatismo devem fazer parte da nossa pauta cidadã.
Nesse campo, na maioria das vezes, somente o transgressor é realmente ético. Afrontar as leis dos homens e as leis de Deus em nome da vida, arriscar-se ao inferno de dom José no desejo de construir um paraíso na terra, abortar um dogmatismo destrutivo e assassino seria talvez o mais desejável projeto a ser assumido nesse mundo complexo.
Surpreendentemente, estaríamos mais próximos de Jesus de Nazaré. Aquele que, por amor ao amor, enfrentou as leis dos homens e as leis de Deus de sua época, e que, paradoxalmente, seria o atual patrono oficial e institucional do bispo de Recife e Olinda, aquele que facilmente arrisca a vida de uma criança de nove anos.
Créditos ao Blog Descanso da Alma pela recomendação. Extraído da coluna Opinião, na página da Editora Ultimato. Marcos Monteiro, autor de Um Jumentinho na Avenida, é mestre em filosofia, pastor na Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE, e na Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e professor no Seminário Teológico Batista do Nordeste em Feira de Santana. É vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr.
Se as fronteiras entre esses espaços não se encontram bem definidas, há uma ética de fronteira de difícil e problemática regulamentação. Uma delas é o aborto, especialmente quando se configura como dilema ético. O problema ético, a escolha entre bem e mal, tem sempre solução mais fácil. O dilema, a escolha entre bem e bem ou entre mal e mal, nos convida à humildade e à tolerância.
O bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso, não acredita em dilemas nem na elasticidade de fronteiras. Administrando espaços religiosos acima dos espaços humanos e leis acima das leis, enviou para o inferno alguns adultos, pais e médicos que promoveram o aborto de gêmeos de uma criança de nove anos que havia sido estuprada e corria riscos por causa da precoce e agressiva gravidez.
Sem tentar questionar os documentos que autorizam o bispo a administrar as fronteiras entre céu e inferno e sem ter coragem de solicitar firma reconhecida para as leis de Deus, somente me pergunto se alguma vez passou pela cabeça do santo prelado que a sociedade estava decidindo entre dois abortos. Ou o aborto permitido pela Igreja, de uma criança de nove anos, com linguagem, história, sonhos e projetos, ou o aborto zigótico, proibido pelo dogma religioso, e que, nesse caso específico, envolve estupro e por isso conta com o apoio das leis do país.
Se as leis pecam por generalizar, embora tenham a vantagem de serem provisórias e circunstanciais, as leis de Deus absolutizam as generalizações, são permanentes e irrevogáveis. Portanto, o direito de legislar em nome de Deus é de indestrutível tirania.
Diante disso, se em tese devemos ser todos favoráveis à vida e contra o aborto, em casos particulares devemos defender o aborto como única possibilidade de sermos fiéis à vida.
No campo do simbólico, devemos continuar nossa luta contra o aborto de sonhos, o aborto da justiça e o aborto da igualdade. Porém, algumas leis favoráveis ao aborto devem ser promulgadas imediatamente. Abortar a corrupção no momento da concepção do projeto, abortar a violência no útero das relações assimétricas, abortar a intolerância no parto do dogmatismo devem fazer parte da nossa pauta cidadã.
Nesse campo, na maioria das vezes, somente o transgressor é realmente ético. Afrontar as leis dos homens e as leis de Deus em nome da vida, arriscar-se ao inferno de dom José no desejo de construir um paraíso na terra, abortar um dogmatismo destrutivo e assassino seria talvez o mais desejável projeto a ser assumido nesse mundo complexo.
Surpreendentemente, estaríamos mais próximos de Jesus de Nazaré. Aquele que, por amor ao amor, enfrentou as leis dos homens e as leis de Deus de sua época, e que, paradoxalmente, seria o atual patrono oficial e institucional do bispo de Recife e Olinda, aquele que facilmente arrisca a vida de uma criança de nove anos.
Créditos ao Blog Descanso da Alma pela recomendação. Extraído da coluna Opinião, na página da Editora Ultimato. Marcos Monteiro, autor de Um Jumentinho na Avenida, é mestre em filosofia, pastor na Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE, e na Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e professor no Seminário Teológico Batista do Nordeste em Feira de Santana. É vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr.






