sexta-feira, 20 de março de 2009

"O dogma do aborto e o aborto do dogma"

Por Marcos Monteiro.

A luta pela humanização se faz entre as fronteiras da ética, da moral e da lei. A grosso modo, a ética trata do bem ideal, a moral do bem real e a lei se propõe a regular o trânsito dos cidadãos e cidadãs entre o real e o ideal.

Se as fronteiras entre esses espaços não se encontram bem definidas, há uma ética de fronteira de difícil e problemática regulamentação. Uma delas é o aborto, especialmente quando se configura como dilema ético. O problema ético, a escolha entre bem e mal, tem sempre solução mais fácil. O dilema, a escolha entre bem e bem ou entre mal e mal, nos convida à humildade e à tolerância.

O bispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso, não acredita em dilemas nem na elasticidade de fronteiras. Administrando espaços religiosos acima dos espaços humanos e leis acima das leis, enviou para o inferno alguns adultos, pais e médicos que promoveram o aborto de gêmeos de uma criança de nove anos que havia sido estuprada e corria riscos por causa da precoce e agressiva gravidez.

Sem tentar questionar os documentos que autorizam o bispo a administrar as fronteiras entre céu e inferno e sem ter coragem de solicitar firma reconhecida para as leis de Deus, somente me pergunto se alguma vez passou pela cabeça do santo prelado que a sociedade estava decidindo entre dois abortos. Ou o aborto permitido pela Igreja, de uma criança de nove anos, com linguagem, história, sonhos e projetos, ou o aborto zigótico, proibido pelo dogma religioso, e que, nesse caso específico, envolve estupro e por isso conta com o apoio das leis do país.

Se as leis pecam por generalizar, embora tenham a vantagem de serem provisórias e circunstanciais, as leis de Deus absolutizam as generalizações, são permanentes e irrevogáveis. Portanto, o direito de legislar em nome de Deus é de indestrutível tirania.

Diante disso, se em tese devemos ser todos favoráveis à vida e contra o aborto, em casos particulares devemos defender o aborto como única possibilidade de sermos fiéis à vida.

No campo do simbólico, devemos continuar nossa luta contra o aborto de sonhos, o aborto da justiça e o aborto da igualdade. Porém, algumas leis favoráveis ao aborto devem ser promulgadas imediatamente. Abortar a corrupção no momento da concepção do projeto, abortar a violência no útero das relações assimétricas, abortar a intolerância no parto do dogmatismo devem fazer parte da nossa pauta cidadã.

Nesse campo, na maioria das vezes, somente o transgressor é realmente ético. Afrontar as leis dos homens e as leis de Deus em nome da vida, arriscar-se ao inferno de dom José no desejo de construir um paraíso na terra, abortar um dogmatismo destrutivo e assassino seria talvez o mais desejável projeto a ser assumido nesse mundo complexo.

Surpreendentemente, estaríamos mais próximos de Jesus de Nazaré. Aquele que, por amor ao amor, enfrentou as leis dos homens e as leis de Deus de sua época, e que, paradoxalmente, seria o atual patrono oficial e institucional do bispo de Recife e Olinda, aquele que facilmente arrisca a vida de uma criança de nove anos.


Créditos ao Blog Descanso da Alma pela recomendação. Extraído da coluna Opinião, na página da Editora Ultimato. Marcos Monteiro, autor de Um Jumentinho na Avenida, é mestre em filosofia, pastor na Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE, e na Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA, e professor no Seminário Teológico Batista do Nordeste em Feira de Santana. É vice-presidente do Centro de Ética Social Martin Luther King Jr.

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quinta-feira, 5 de março de 2009

Uma Só Carne, Múltiplas Opiniões


"Sexo e a igreja" - essa é a chamada para a segunda blogagem coletiva do ano da Blogosfera Cristã, desta vez em parceria com o dotCast. Pessoalmente, penso que falar sobre sexo sob uma perspectiva ideológico-religiosa é infinitamente mais interessante que discuti-lo sob a ótica eclesiástica. Então, comecemos [ainda que redundantemente] pelo começo.

Creio não estar sozinho ao dizer que o sexo não é o objetivo de um relacionamento a dois. Claro, ele constitui o ponto máximo da união entre homem e mulher [a "uma só carne", que seja], mas não é o objetivo ou fundamento daqueles que se casam. Bem, falo pelos casos em que é reservado um mínimo de [digamos] razoabilidade.

Existem, porém, aqueles "menos razoáveis", que pensam ser o sexo foco central de um relacionamento. Que seja, mas qual seria o efeito imediato de um mal desempenho sexual do parceiro? O efeito seria a frustração afetiva. Frustração por pensar que o sexo seria a melhor parte de um casamento.

Fato é que sexo vende muito mais facilmente que um relacionamento e as responsabilidades que ele acarreta. É mais fácil aceitar o "item sexo", que todo o "pacote matrimonial". Sendo assim, podem perguntar: "o que impediria duas pessoas que namoram firme de morar juntos e iniciarem sua vida sexual, uma vez que já existe entre eles um compromisso?".

Pergunto então: "por que não casar?". O compromisso seria sério o bastante para o acessório mas não para o principal? Soa confuso. E qual seria a força de um compromisso feito entre duas pessoas, para e perante si mesmas? Não sei... talvez tanto quanto a palavra de um escoteiro. O que pode distinguir um namoro a toa de um namoro sério? Cada um que vai dizer, não é verdade? Seria o Espírito Santo falando a cada um? Penso que não.

Eu, porém, acho que nossos instintos, não raro, podem mascarar [e muito] nossas escolhas. Daí, então, cada um se entregaria ao pseudo-amor, porque tem “certeza” do que sente e depois se depararia com uma frustração. O que o impediria de sair “frustrando-se” cada dia com uma pessoa diferente? Essa é a intenção do casamento. Colocar uma presunção de maior compromisso e responsabilidade no envolvimento sexual e, principalmente, amoroso.

Não digo com isso que namoro sem casamento é sinônimo de falta de compromisso, amor, ou qualquer congênere. Tenho amigos que namoram firmes em relacionamentos mais sólidos que muitos cônjuges que conheço. Isto me leva ao outro ponto desta discussão: o momento em que o casamento começa.

Ele começa no momento em que as duas pessoas assumem e externam um compromisso entre si. E esse compromisso é o casamento? Às vezes sim, às vezes não. Existem pessoas que não levam um casamento a sério. Como falei antes, existem pessoas que, infelizmente, vêem o casamento como meio de se legitimar ao sexo ["é melhor casar que abrasar"?]. O sexo passa a ser o principal e o casamento, o relacionamento, passa a ser o acessório. Então, para estas pessoas o casamento nunca começou.

Externar a plenitude de uma vida a dois. Esse é o objetivo do casamento. Ele começa no namoro e se aperfeiçoa no altar [ou no cartório, que seja]. Viver o sexo antes do aperfeiçoar deste ciclo é, na verdade, pular importantes etapas de um auto e mútuo conhecimento. Da mesma forma que, ainda segundo essa lógica, proceder ao casamento antes de conhecer ao parceiro também não faz sentido.

Ainda que respeite os argumentos sobre a dificuldade prática que um casamento enseja, não tenho como concordar que uma união estável, ou outra forma mais "aberta" de relacionamento baste. Bastaria uma união limitada para uma entrega parcial. Mas, os que se casam buscam segurança; segurança para depositar seus sentimentos e expectativas de forma integral. É um investimento maior que qualquer outro, pois o tempo, a dedicação, o amor e até mesmo o sexo entregues à relação não são, nem podem ser, aplicados a fundo perdido.

O que você espera de um relacionamento, a entrega ou um empréstimo? Nada além deste último será conseguido enquanto não se entender a importância de um compromisso por inteiro. Àqueles que discordam desse ponto de vista, desejo boa sorte. Sorte por sorte, mais acertado então seria atentar às inscrições no Oráculo de Delfos: "Conhece-te a ti mesmo."

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Entre Aspas #5

"Carnaval, carnaval, carnaval. Fico tão triste quando chega o carnaval. Eu me lembro duas noites de alegria e recordo que perdi minha Maria." ["Quando o Carnaval Chegou" de Ciro José e Luiz Melodia].

Inconsolável melodia do incomparável Melodia. Quem além dele ficaria triste em pleno carnaval? Não eu. Não você. Existem motivos para nos entristecermos? Não os vejo. Vejo festa por todos os lados, alegria sem hora pra acabar, muita gente junta. Gente que pula, canta, brinca e suas fantasias, por si só, traduzem o sentido da festa: liberdade.

Se todos riem, se todos brincam, se todos pulam, por que o Melodia chora? Ele não chora pelo que vê, mas sim pelo que não mais vê: sua Maria. "Ah, nossas noite de alegria!" - lembra. "Ai, se ainda tivesse minha Maria..." - suspira. Como sorrir enquanto relembra o que perdeu? Agora sei o porquê da melodia; agora conheço o pesar do Melodia.

E como rir enquanto alguém que tanto te ama se desfaz em lágrimas em meio a uma multidão de alegria? Ah, Maria, por que tanta vilania? "Será mesmo vilania?" - pode ela replicar. Com razão, pois, o que há de tão mau em não amar alguém que te ama? Duas noites se passaram, com a manhã do terceiro dia ela se foi. Cansou-se daquela alegria. Cansou-se do Melodia.

Carnaval de risos. Carnaval de lágrimas. Difícil dizer em qual dos dois acabaremos na quarta-feira de cinzas. Mas, se existe algo que realmente sabemos, é que não chora sozinho o Melodia. Não choram sozinhos os tantos Pierrots ou Colombinas. Mais que todos eles, ouço prantear uma voz do alto que sussurra: "Carnaval, carnaval, carnaval. Eu fico triste quando chega o carnaval."

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O Amor Fora do Papel

"Amarás o teu próximo como a ti mesmo. " Este é, sem sombra de dúvida, o mais árduo dos mandamentos a se cumprir. Muitos escondem-se na sombra do primeiro mandamento [que nos diz que devemos amar Deus de todo o nosso coração, toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento], mas esquecem-se que não há como convencer o Deus do céu que o amamos enquanto nem ao menos nos demonstramos sensíveis às dificuldades dos irmãos ao lado.

Imagine uma espécia de auto-preservação refletida e projetada para fora. Como seria se todos tivéssemos uma consciência coletiva que nos conduzisse à preservação alheia? Como seria viver em um mundo cuja lei fosse a tolerância, o amor e o respeito? Foi exatamente nisso que Cristo pensou. Não sei se todos podem concordar, mas a leitura do texto bíblico a que faço menção [Mt 22:37] destaca a equivalência entre o amor a Deus e o amor ao próximo.

Falar de amor sempre me faz lembrar do conceito de amor nos versos de Steven Tyler: "love is love reflected." ["amor é amor refletido."]. O que, por sua vez, me remete a um conceito de economia, que diz que "capital é tudo aquilo que você aplica para gerar mais capital". Aquilo que você dá como sendo amor inspira mais deste sentimento que, mais cedo ou mais tarde, esperando ou não, volta pra você. Nada poderia ser tão relativo, enquanto tão subjetivo.

O aperfeiçoamento daquele amor a que Cristo se referiu depende, a um só tempo, da noção individual de amor a Deus, amor ao próximo e, principalmente, amor-próprio. Isto porque, aquele que não espera o amor para si, de forma alguma o multiplicará. Basicamente é isso: ame bem e seja bem amado, ame mal e seja mal amado. Saber amar é o principal requisito. Então inspire-se em Deus e ame. Ame não só os que te amam, mas também seus inimigos, seus desafetos, as minorias, as maiorias e tantos outros quanto surjam. Afinal, se Deus é amor, não é possível pregá-lo sem praticar a sua essência, pois, como sabemos, aquele que não ama não conhece a Deus.

(Referências: Mt 22:37 e I Jo 4:8.)

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Esperei no Senhor e Dormi no Sofá

Tudo tem seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu. De fato, não é possível ao homem conhecer o seu futuro, tampouco se haverá ou não um futuro para se preocupar. Muitas vezes não temos discernimento, ou até mesmo a maturidade necessária, para entender que o período de espera tem a ver com o desenvolver de um algo maior e posterior, que será o fruto do nossa semeadura.

Lembro-me de ter ouvido um diálogo no filme "A Ilha" (Warner - 2005) no qual Deus é descrito como "aquele que nos ignora quando nós fechamos os olhos e desejamos muito alguma coisa. Não é de todo errado, tenho que concordar, porém ressalvas devem ser feitas. Deus sempre nos "ignorará" quando pedirmos algo que não condiga com o nosso melhor.

Muitos de nós, quando crianças, costumavam ter aquela mesma impressão acerca dos seus pais. Entretanto, a razão para toda negativa dos pais aos mais absurdos pedidos estava na própria natureza do que se pedia. Assim é com o que pedimos a Deus. Muitas vezes não seremos respondidos [da forma que queremos ou de forma alguma] justamente por não conhecermos toda realidade, mas isto não faz d'Ele um mau Deus.

Qual o pai que daria uma pedra ao filho faminto que lhe pede pão? Se até nós, homens, compadecemo-nos do filho de um filho que pede, por que seria diferente com Ele? Seria muita perversão imaginar que um bom Deus seria aquele que atende a todos os nossos desejos. Pergunto então: qual seria o pai que daria uma pedra ao filho faminto que lho pede pedra? O bom pai seria aquele que lhe desse pedras ou o que lhe ensinasse que a fome deve ser saciada com pães?

Acredito que o xis da questão está na nas palavras de Tiago : "Pedis, e não recebeis, porque pedis mal". O problema não está no Deus que não dá, mas sim na falta de conhecimento dos que pedem. Todo aquele que pedir receberá; aquele que buscar encontrará; bata na porta porta certa e ela se abrirá. Sabedoria no pedir e paciência no esperar não são algo fácil de se alcançar justamente porque atacam o imediatismo que domina os nossos dias. Mas enquanto o Fast God não inaugurar o seu Drive-Thru, devemos aprender a lidar com nossas ansiedades, ou então partir em busca de algumas lâmpadas mágicas.

(Referências: Ec 3:1, Ec 11:5 e 6, Mt 7:8-11 e Tg 4:3.)

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